O que é dislipidemia?
Dislipidemia é o nome médico para as alterações nos níveis de gorduras do sangue, principalmente o colesterol e os triglicérides. O mais preocupante é que, na maioria das vezes, ela não causa nenhum sintoma: é um fator de risco silencioso que, quando não identificado e tratado, pode levar a infarto e AVC.
Os tipos de colesterol e os triglicérides
Para circular no sangue, o colesterol é transportado por partículas chamadas lipoproteínas, cada uma com uma função:
- LDL (colesterol "ruim"): leva o colesterol para as células. Em excesso, deposita gordura nas paredes das artérias e inicia a formação de placas (aterosclerose). É a principal forma de colesterol que causa doença nas artérias.
- HDL (colesterol "bom"): faz o caminho inverso, removendo o colesterol das células e levando-o de volta ao fígado. Níveis adequados de HDL se associam a menor risco.
- Triglicérides: o tipo mais abundante de gordura no sangue. Quando altos, especialmente junto com HDL baixo, formam um padrão muito comum em quem tem excesso de peso e resistência à insulina.
- Colesterol não-HDL: a soma do LDL com outras partículas que causam doença; representa o risco de forma mais completa do que só o LDL.
Por que o colesterol alto causa infarto e AVC?
O LDL elevado é um dos fatores de risco mais importantes e modificáveis para doenças do coração, e a relação é causal: ele participa diretamente do processo que leva ao infarto e ao AVC. Em excesso, o LDL penetra a parede da artéria, sofre oxidação e desencadeia inflamação, formando uma placa de gordura que pode crescer, estreitar a artéria e se romper, gerando um coágulo que bloqueia o fluxo de sangue. Se isso ocorre numa artéria do coração, é o infarto; se numa artéria do cérebro, é o AVC.
Grandes estudos mostram que cada redução de 39 mg/dL no LDL diminui em cerca de 22% os eventos cardiovasculares. O benefício é proporcional: quanto maior a redução do LDL, maior a proteção.
A relação com a obesidade e a síndrome metabólica
A obesidade, sobretudo a gordura abdominal, está muito ligada à dislipidemia. O padrão típico inclui triglicérides altos, HDL baixo e partículas de LDL pequenas e densas, que são especialmente perigosas. Esse conjunto faz parte da síndrome metabólica, diagnosticada com pelo menos três destes critérios:
- Circunferência abdominal aumentada
- Triglicérides iguais ou acima de 150 mg/dL
- HDL baixo (abaixo de 40 mg/dL em homens; 50 em mulheres)
- Pressão arterial igual ou acima de 130/85 mmHg
- Glicemia de jejum igual ou acima de 100 mg/dL
Pessoas com síndrome metabólica têm o dobro do risco de doença cardiovascular e cinco vezes mais risco de diabetes tipo 2. A resistência à insulina e a inflamação crônica são os elos entre a obesidade, a dislipidemia e o risco elevado.
Como é feito o diagnóstico e por que calcular o risco cardiovascular
O diagnóstico é feito por um exame de sangue simples, o perfil lipídico, que mede o colesterol total, o LDL, o HDL, os triglicérides e o não-HDL. Na maioria das pessoas, a coleta pode ser sem jejum. As diretrizes recomendam fazer o perfil lipídico a cada 4 a 6 anos a partir dos 20 anos, e com mais frequência quando há fatores de risco.
O valor do colesterol isolado não conta toda a história: duas pessoas com o mesmo LDL podem ter riscos bem diferentes conforme idade, sexo, pressão, tabagismo e diabetes. Por isso, o médico usa calculadoras de risco cardiovascular, que estimam a chance de infarto ou AVC nos próximos anos e ajudam a decidir, junto com o paciente, se bastam mudanças no estilo de vida ou se é preciso medicação.
Os pilares do tratamento
O tratamento combina alimentação, atividade física e, quando necessário, medicamentos. A alimentação é a primeira linha: padrões como a dieta mediterrânea e a DASH ajudam, reduzindo gorduras saturadas (trocando por azeite, abacate, nozes e peixes), aumentando as fibras, limitando açúcares e carboidratos refinados (importante para os triglicérides) e reduzindo o álcool. A atividade física (pelo menos 150 minutos por semana) aumenta o HDL, reduz o LDL e os triglicérides e melhora a sensibilidade à insulina.
Entre os medicamentos, as estatinas são a primeira linha para reduzir o LDL: grandes estudos mostram que reduzem o risco de infarto em cerca de 33% e de AVC em 22%, e são seguras e bem toleradas na maioria dos casos (efeitos graves são muito raros). Quando as estatinas não bastam ou não são toleradas, o médico pode associar ezetimiba, ácido bempedoico ou inibidores de PCSK9; para triglicérides muito altos, fibratos ou ômega-3 em dose adequada.
A importância do acompanhamento
A dislipidemia é crônica e exige acompanhamento contínuo. Após iniciar o tratamento, costuma-se repetir o perfil lipídico em algumas semanas para avaliar a resposta e, depois, monitorar periodicamente. O acompanhamento permite verificar se as metas de LDL e triglicérides estão sendo atingidas, ajustar os medicamentos, reforçar as mudanças de estilo de vida, monitorar efeitos colaterais e reavaliar o risco cardiovascular ao longo do tempo.
Lembre-se: a dislipidemia não dói e não avisa. O cuidado preventivo, com exames regulares e acompanhamento médico, é a melhor estratégia para proteger o coração e o cérebro a longo prazo.
