O que são esses medicamentos e como funcionam?
Os medicamentos modernos para emagrecer são as chamadas terapias baseadas em incretinas, hormônios naturais do intestino que regulam o apetite e o metabolismo. Há dois grupos principais:
- Análogos de GLP-1 (semaglutida, liraglutida): imitam o hormônio GLP-1, agindo em áreas do cérebro ligadas à fome e à saciedade. Reduzem o apetite, aumentam a saciedade e diminuem o desejo por alimentos calóricos, além de retardar o esvaziamento do estômago.
- Agonista duplo GIP/GLP-1 (tirzepatida): age em dois receptores ao mesmo tempo, potencializando os efeitos sobre o apetite, a gordura e a glicose, com perda de peso ainda maior.
A semaglutida e a tirzepatida são aplicadas por injeção uma vez por semana; a liraglutida é diária. Já existem também comprimidos de semaglutida aprovados para obesidade.
Quanto peso é possível perder?
Os resultados variam de pessoa para pessoa, mas os grandes estudos mostram perdas significativas:
- Liraglutida: em média de 5% a 8% do peso em 56 semanas.
- Semaglutida: em média cerca de 15% do peso em 68 semanas (num estudo comparativo, 15,8% contra 6,4% da liraglutida).
- Tirzepatida: até 17,8% a 22,5% do peso em 72 semanas, o medicamento mais eficaz entre os disponíveis.
Na prática do dia a dia, os resultados costumam ser um pouco menores (cerca de 8% a 11%). A perda é mais rápida nos primeiros 6 meses e se estabiliza por volta dos 18 meses. A resposta é individual: alguns perdem mais de 20%, outros têm resultados mais modestos.
Benefícios que vão além da balança
Esses medicamentos não são apenas remédios para emagrecer. Trazem benefícios comprovados para vários órgãos:
- Coração: a semaglutida reduz em 20% o risco de eventos cardiovasculares graves (infarto, AVC e morte cardiovascular) em pessoas com obesidade e doença do coração, mesmo sem diabetes.
- Diabetes tipo 2: melhoram o controle da glicose, reduzem a resistência à insulina e podem prevenir a progressão do pré-diabetes, com baixo risco de hipoglicemia.
- Rins: reduzem a perda de proteína na urina e retardam a piora da função renal.
- Fígado: a semaglutida foi aprovada para o tratamento da esteato-hepatite metabólica (MASH) com fibrose moderada a avançada, com resolução da inflamação em boa parte dos pacientes.
- Outros: melhora da apneia do sono, da osteoartrite do joelho, da pressão, do colesterol e da qualidade de vida.
Quem pode usar e quem não deve
São indicados como complemento à dieta e à atividade física para adultos com obesidade (IMC 30 ou mais) ou com sobrepeso (IMC 27 ou mais) que tenham alguma condição associada (diabetes, hipertensão, colesterol alto, apneia ou doença cardiovascular). A prescrição é considerada quando só o estilo de vida não foi suficiente.
Existem contraindicações importantes: história pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou neoplasia endócrina múltipla tipo 2, alergia ao princípio ativo, gravidez e amamentação. É preciso cautela em quem teve pancreatite, doença da vesícula grave ou problemas intestinais. Por tudo isso, a indicação exige avaliação médica.
Efeitos colaterais e como lidar com eles
Os efeitos mais comuns são gastrointestinais e costumam ocorrer no início e nos aumentos de dose: náusea, diarreia, vômitos, constipação e azia. Na maioria dos casos são leves a moderados e melhoram com o tempo. Estratégias que ajudam: refeições menores e mais frequentes, comer devagar, evitar alimentos muito gordurosos e frituras, reduzir álcool e bebidas gaseificadas, e manter boa hidratação e fibras.
O ponto-chave é a escalação gradual da dose: começar na menor dose e aumentar aos poucos, conforme a tolerância. Nos estudos, apenas 6% a 10% precisaram interromper por efeitos colaterais. Efeitos raros, mas que exigem atenção médica, incluem pancreatite, cálculos na vesícula e lesão renal por desidratação.
O que acontece quando o medicamento é interrompido?
Este ponto é crucial: a obesidade é uma doença crônica, e esses medicamentos tratam, mas não curam, os mecanismos que levam ao ganho de peso. Ao interromper, boa parte do peso perdido tende a voltar (em estudos, cerca de dois terços em um ano com a semaglutida), e os benefícios metabólicos também regridem.
Isso não significa que o tratamento não funciona: assim como nos remédios para pressão ou colesterol, manter o benefício depende da continuidade. A duração do uso é decidida caso a caso com o médico. Manter alimentação saudável e exercício regular, durante e após o tratamento, é essencial para preservar os resultados.
Por que o acompanhamento médico é indispensável?
Esses medicamentos são ferramentas poderosas, mas exigem prescrição e acompanhamento por várias razões: avaliar a história clínica e as contraindicações antes de iniciar; ajustar outros medicamentos (em quem tem diabetes, pode ser preciso reduzir a insulina para evitar hipoglicemia); fazer a titulação personalizada da dose; e monitorar de perto a eficácia, os efeitos e o estado nutricional.
O uso por conta própria, motivado por modismos ou redes sociais, pode ser ineficaz e perigoso, ainda mais com produtos de procedência duvidosa ou fórmulas manipuladas sem controle de qualidade. Esses medicamentos são parte de um plano de tratamento de uma doença crônica, e não uma solução cosmética rápida.
