O que é a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica?
A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, conhecida pela sigla em inglês MASLD, é o nome atualizado para o que antes se chamava "esteatose hepática não alcoólica" ou "fígado gorduroso". A mudança de nomenclatura, adotada em 2023 pelas principais sociedades médicas do mundo, teve dois objetivos: eliminar o estigma do termo "gorduroso" e destacar que a verdadeira causa da doença é a disfunção metabólica, e não simplesmente a presença de gordura no fígado.
Na prática, a MASLD é definida pelo acúmulo excessivo de gordura no fígado (mais de 5% das células hepáticas) em uma pessoa que tem pelo menos um fator de risco cardiometabólico, como sobrepeso ou obesidade, pré-diabetes ou diabetes tipo 2, pressão alta, triglicerídeos elevados ou colesterol HDL baixo, e que não consome álcool em quantidades prejudiciais ao fígado.
A MASLD é um espectro de condições. Na fase inicial, há apenas acúmulo de gordura sem inflamação significativa. Quando surge inflamação com lesão das células do fígado, o quadro passa a se chamar MASH (antiga NASH), que pode evoluir para fibrose (cicatrização do tecido), cirrose e até câncer de fígado.
Uma epidemia silenciosa: números que impressionam
A MASLD é hoje a doença hepática crônica mais comum no mundo, afetando cerca de 38% da população adulta global, aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas. A prevalência é ainda maior em grupos de risco:
- 60% a 70% das pessoas com diabetes tipo 2 têm MASLD
- 70% a 80% das pessoas com obesidade têm MASLD
- No Brasil e na América Latina, a prevalência está entre as mais altas do mundo, ao redor de 44% dos adultos
Projeções indicam que, até 2050, cerca de 1,8 bilhão de pessoas poderão ter a doença.
A relação com obesidade, síndrome metabólica e diabetes
A MASLD não é uma doença isolada do fígado. Ela é, na essência, a manifestação hepática de um problema metabólico de todo o corpo. Os principais fatores de risco são:
- Obesidade abdominal (cintura aumentada)
- Resistência à insulina e diabetes tipo 2
- Triglicerídeos elevados e colesterol HDL baixo
- Hipertensão arterial
Quanto mais componentes da síndrome metabólica a pessoa tem, maior o risco de desenvolver MASLD e de a doença progredir. A resistência à insulina é central: favorece o acúmulo de gordura, promove inflamação e acelera a fibrose. Quem tem pré-diabetes tem 2,5 vezes mais chance de ter MASLD e 8,5 vezes mais chance de ter fibrose significativa, e cerca de 70% das pessoas com diabetes tipo 2 têm a doença.
MASLD e risco cardiovascular: a principal causa de morte
Um dos aspectos mais importantes, e mais subestimados, da MASLD é a forte ligação com as doenças do coração. A doença cardiovascular é a principal causa de morte em pessoas com MASLD, à frente das complicações do próprio fígado e do câncer.
Uma grande meta-análise com 5,8 milhões de pessoas mostrou que a MASLD aumenta em cerca de 45% o risco de eventos cardiovasculares fatais e não fatais, independentemente dos fatores de risco tradicionais. Esse risco chega a ser 2,5 vezes maior quando há fibrose hepática avançada. A doença também se associa a maior risco de insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e doença renal crônica.
Por isso, a MASLD deve ser tratada não apenas como uma doença do fígado, mas como parte de uma estratégia de prevenção cardiovascular: estudos mostram que a regressão da doença se associa à redução do risco para o coração.
Como é feito o diagnóstico
A MASLD é chamada de "doença silenciosa" porque, nas fases iniciais, raramente causa sintomas. Muitas vezes o diagnóstico começa com a descoberta de gordura no fígado num ultrassom, ou com enzimas hepáticas (ALT e AST) alteradas em exames de rotina. Mas atenção: as enzimas podem estar normais mesmo em doença avançada. O diagnóstico segue etapas:
- Identificar quem está em risco: adultos com diabetes tipo 2, pré-diabetes, obesidade ou dois ou mais fatores metabólicos devem ser rastreados, mesmo com enzimas normais.
- Índice FIB-4: um cálculo simples (idade, AST, ALT e plaquetas) que estima o risco de fibrose. Abaixo de 1,3 = baixo risco; entre 1,3 e 2,67 = risco intermediário; acima de 2,67 = alto risco.
- Elastografia hepática (FibroScan): exame não invasivo que mede a rigidez do fígado; valores acima de 8 kPa sugerem fibrose significativa.
- Encaminhamento ao especialista: quem tem sinais de fibrose significativa deve ser avaliado por hepatologista ou gastroenterologista.
A importância do acompanhamento regular
A MASLD é uma doença progressiva e dinâmica, por isso o acompanhamento periódico é fundamental. As sociedades médicas recomendam:
- Repetir o FIB-4 a cada 1 a 2 anos em quem tem diabetes tipo 2, pré-diabetes ou dois ou mais fatores de risco.
- Repetir a cada 2 a 3 anos em quem tem menos fatores de risco e não tem diabetes.
- Quem já tem cirrose precisa de vigilância regular para câncer de fígado e outras complicações.
Tratamento: mudanças no estilo de vida são a base
Não existe uma "pílula mágica" para a MASLD. O tratamento de primeira linha é a mudança de estilo de vida:
- Perda de peso: reduzir ao menos 5% do peso melhora a gordura no fígado; 7% a 10% pode melhorar a inflamação; acima de 10% pode melhorar a fibrose.
- Alimentação: a dieta mediterrânea (frutas, vegetais, grãos integrais, azeite, proteínas magras, com menos açúcar, ultraprocessados e gordura saturada) tem a melhor evidência.
- Atividade física: pelo menos 150 minutos por semana de atividade moderada; qualquer aumento já ajuda.
- Álcool: quem tem fibrose significativa deve evitar completamente.
Também é essencial controlar bem os fatores de risco: tratar o diabetes, controlar a pressão e usar estatina para o colesterol quando indicado (as estatinas são seguras na MASLD). Para casos mais avançados (MASH com fibrose moderada a avançada), já existem dois medicamentos aprovados, a semaglutida e o resmetirom, que melhoram a inflamação e a fibrose. A cirurgia bariátrica pode ser considerada na obesidade grave.
Por que o acompanhamento cardiometabólico integrado faz diferença
A MASLD é muito mais do que uma doença do fígado: é um marcador de risco cardiometabólico que sinaliza maior chance de infarto, AVC, insuficiência cardíaca, diabetes e doença renal. Por isso, o cuidado ideal é integrado, unindo a saúde do fígado ao manejo do coração e do metabolismo.
Se você tem sobrepeso, obesidade, diabetes, pré-diabetes ou outros componentes da síndrome metabólica, vale conversar com o seu médico sobre investigar a saúde do fígado. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado previnem a progressão da doença e, sobretudo, reduzem o risco cardiovascular, a maior ameaça à vida de quem convive com essa condição.
